O pequeno mais não faz do que chamar a atenção sobre si, dizendo apenas uma qualquer infantilidade própria de quem é infantil.
Pelo caminho, o que fica claro, pelo menos na mente do petiz, é que tudo gira em torno das suas vontades e do seu querer.
O pai, que ordenou o silêncio necessário à intervenção do Joãozinho, mandou calar avós, irmãos, tios, amigos e todos os restantes
comensais, para, com enorme orgulho, colocar o filho num pedestal de importância inversamente oposta ao interesse que a fala
do menino poderia trazer ao guião daquele momento de convívio familiar.
Podemos ou não ter assistido a este episódio,
mas todos reconhecemos o estereótipo, próprio de várias gerações de crianças endeusadas. Crianças que, em situações limite,
acham normal bater num colega ou num professor quando as suas vontades não são feitas. Desrespeitam o outro, desrespeitando-se,
em última análise, a si próprios e aos pais que tanto lhes «facilitaram» a má formação.
Crianças que acabam a braços
com problemas de identidade, de realização pessoal, de insatisfação crónica. Amar e ser amado exige muito mais do que mera
e cega (para não dizer tola) devoção. Amar é respeitar, dar espaço, liberdade, aceitar divergências, saber ouvir, dar importância
ao que tem importância, aconselhar, encaminhar, ajudar, transmitir confiança, estar lá¿ Ficamo-nos por aqui, numa lista que,
sem esforço, poderia continuar. Mas amar não pode implicar a anulação do sujeito que ama. Ou seja, amar também é dizer «Não».
Ele é tão importante na educação, formação e estruturação psicológica e mental de uma criança quanto o «Sim». Não deitemos
agora por terra o muito que já se fez na reabilitação e no respeito dos direitos das crianças, imperiosos, fundamentais e
inalienáveis. Falamos, sim,de balizamentos que asseguram a própria segurança da criança, que a ajudam a perceber que o mundo
não gira em seu redor e que há outros mundos com os quais não se pode colidir. O «Não» ensina a lidar com a própria frustração.
Estimula até competências sociais (e porque não intelectuais), na busca de alternativas e consensos. Nenhum pai tira prazer
em contrariar o filho, nem que nunca tenha caído numa das mais perigosas esparrelas: a de transformar «nãos» em «sins», ainda
que consciente de que um eterno «Sim» é contraproducente, permissivamente limitativo e denunciador de um pai fraco e de uma
má educação.
Sobre este vasto tema nos falou a psicoterapeuta infantil Asha Phillips, autora britânica do livro
«Um Bom Pai Diz Não». Esperemos que sirva de ferramenta, ajude a reavaliar comportamentos e a encontrar saídas perante as
muitas e ardilosas encruzilhadas com que os pais de hoje se deparam.
Felipa Garnel
Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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Último comentário
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1jus santos
ler todos os comentários »2009-10-01 14:02h
Parabéns!
Parabéns à revista Lux que volta a fazer um produto de qualidade. Força António Feio! As melhoras Rui Veloso! E muitas felicidades para Ricardo Pereira. Faço figas ainda para que nada aconteça a Ronaldo!
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