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Confissões de Nené: ex-jogador do Benfica conta o que sofreu quando o filho decidiu tornar-se mulher
Redação Lux em 2010-04-17 19:02

«Não posso dizer que foi fácil. Não estava preparado para enfrentar estas diferenças nem sabia como as interpretar. E, por outro lado, estava inserido num meio declaradamente machista, que vê nos filhos homens um prolongamento de si mesmo e tudo o que foge às regras é rejeitado. Mantive sempre a cabeça erguida e aceitei os desígnios que Deus me atribuiu com alguma serenidade. Os filhos nasceram para ser amados, protegidos e respeitados, independentemente das suas características ou dos problemas que arrastam consigo. A transexualidade é uma situação complexa que leva o seu tempo a aceitar e a entender.» As palavras são de Nené, ex-glória do Benfica, tiradas de «Absolutamente Mulher», a biografia lançada pela filha, Filipa Gonçalves, a primeira pessoa a fazer a operação para mudar de sexo em Portugal.

Lidar com a transexualidade do filho mais novo foi o maior desafio que a vida impôs ao ex-futebolista. Hoje, olha para trás e orgulha-se do caminho que fez para apoiar Filipa, que há 30 anos nasceu Paulo. Um caminho marcado por muito sofrimento e sacrifício e feito apenas com o apoio dos poucos que o preconceito não afastou. Numa época em que a transexualidade era ainda uma palavra desconhecida para a maioria, Nené e a mulher, Iria, foram obrigados a aprender a lidar com o problema do filho mais novo.

«Ouvir um filho dizer que é uma menina é um choque muito grande. Na altura, foi um choque para nós. Alguma coisa estava mal, mas não percebíamos», confessou o ex-futebolista, que sempre se mostrou mais compreensivo em relação a Filipa do que a mulher. ¿Com 3 anitos, ela escondia a pilinha entre as pernas e dizia que era uma menina. Dei-lhe alguns açoites! Para mim, era impensável ter um fi lho que me dizia que queria ser uma menina¿, confessou Iria, que escondia do filho as poucas bonecas que Nené lhe chegou a comprar.

«Talvez por ter passado por muitos países, por ter visto algumas coisas e por saber um pouco sobre o que nos tinha "caído" em casa, estava um bocadinho mais informado¿, recordou o pai da manequim da DXL Models, que contou com o apoio dos pais quando assumiu publicamente o seu passado, na altura em que participou na «Quinta das Celebridades». Agora, aos 30 anos,
Filipa Gonçalves descreve sem tabus como foi crescer num corpo de homem com o desejo de ser mulher.

«É um livro com muita emoção e, acima de tudo, é um livro sincero. Ajudou-me a ultrapassar alguns fantasmas que ainda tinha. Foi libertador», disse Filipa, no dia em que apresentou a sua biografia, escrita em parceria com Maria Carvalho Costa, no programa de Júlia Pinheiro, na TVI. «O apoio dos meus pais foi fundamental. Não teria desistido porque sou uma lutadora e sou teimosa, mas sem eles não teria sido tão fácil em termos psicológicos. Sou a mulher que sou hoje graças aos meus pais e à base familiar que sempre tive.»

Apesar de hoje estarem orgulhosos de Filipa, Nené e Iria nem sempre compreenderam o desejo da filha.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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