«Vagina. Digo vagina porque aquilo que não dizemos, nem reconhecemos torna-se segredo e este cria vergonhas, mitos e medos».
A
actriz São José Correia diz «vagina» porque é o tema central dos monólogos que deixaram de ser exclusivos de uma só actriz.
Três cadeiras e três microfones recebem Ana Brito e Cunha, Guida Maria e São José Correia num palco iluminado por três focos
de luzes vermelhas para falar de ... vaginas!
À procura de medos, fantasias, dramas e insatisfações femininas
nasceram os «Monólogos da Vagina», resultado de 200 entrevistas realizadas por Eve Ensler a mulheres de todo o mundo.
Mulheres
novas, velhas, pretas, brancas, caucasianas... Todas elas tinham relutância em falar mas quando falavam ninguém as conseguia
calar.
Ana Brito e Cunha assume, em palco, o papel dessa jornalista que conseguiu convencer dezenas de mulheres a
falar das suas vaginas. Vagina ou outro sinónimo qualquer.
Passarinha, crica, racha, patareca, pita, «cenaita» e
bacalhau são alguns dos termos que arrancam o riso à plateia para definir, afinal, aquilo de que se fala.
A linguagem
é explicita, sem ser ordinária, porque a mensagem é forte. Segundo Ana Brito e Cunha «quando se fala em vagina pensa-se em
algo erótico/pornográfico. Nesta peça fala-se dela tanto em tom prazeroso como o caso do nascimento dos bebés, como de histórias
de violações. E isso é denso. É sério!»
Alguns dos monólogos são entrevistas textuais. Outros o cruzamento de várias entrevistas e outros, ainda, o
resultado da imaginação da autora. Todos somados falam do prazer, das infelidades conjugais, da menstruação, de violações,
de partos e até de terapias de grupo. Um dos monólogos é inspirado num dos wokshops organizado por Betty Dotson, uma mulher
que anda, há 25 anos, a ajudar as mulheres a localizar e a amar as suas vaginas
Mas o desafio de falar da intimidade
de outras pessoas nem sempre é fácil: «Trata-se de monólogos que exigem um discurso directo para o público sobre temas muito
íntimos. Não é a minha intimidade que está ali a ser tratada. Represento a intimidade de uma série de mulheres», admite São
José Correia.
Já simular um orgasmo em palco é para a actriz um divertimento: «É complicado (risos!) mas tenho a
ajuda da Ana Brito e Cunha que também me ajuda, mas seguramente que não é parte mais difícil. É até divertido».
Guida
Maria protagoniza um dos monólgos mais intensos da peça. A história dramática de uma mulher feita prisioneira num campo de
concentração na Bósnia. Em 1994 e em plena Europa foram violadas milhares de mulheres em nome de uma «estratégia sistemática
de guerra».
A actriz declama um poema que conta essa história trágica. O momento intenso termina com a projecção
das fotos de algumas dessas mulheres.
Guida Maria assume a dificuldade desta interpretação: «Quando digo aquele
poema engulo em seco, porque me custa imenso dizer aquilo e tento colocar-me no lugar daquelas mulheres. Não imagino o que
é ter uma espingarda enfiada na vagina. O poema é de uma grande beleza e ilustrador daquilo que os governos permitem».
Tampões,
bicos de patos, cuecas de fio dental são rejeitados veementemente. São José Correia consegue arrancar mais risos ao gritar
contra estes atentados à vagina.
Guida Maria interpretou a peça em 2000 sozinha em palco. Agora a nova encenação
de Isabel Medina opta por uma história contada a três:
«Guida Maria representa a vivência pela idade que tem. A
Ana Brito e Cunha veste a pele da autora dos monólogos. A São José Correia representa a sexualidade e sensualidade da mulher.»
A peça sobe ao palco, esta terça-feira, no Auditório dos Oceanos no Casino Lisboa.
Reportagem: Irene
Pinheiro
Imagem: Luís Silva
Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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Último comentário
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3silence
ler todos os comentários »2009-09-08 17:27h
monologo
gostaria de saber se esta peça estara no porto?
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3 comentário sTodos as opiniões estão sujeitas a aprovação prévia por parte da Lux