Tempo de qualidade. Muito se fala deste conceito que tenta desculpar e colmatar a falta de tempo com pedaços de tempo que,
ainda que curtos, cumpram o propósito de se tornarem memoráveis. A ideia é brilhante e nela se baseiam critérios e fundamentam
teorias que vão do marketing à arquitectura e em que do menos se faz mais. Sem hesitações, agendem-se, então, vários dias
por semana, ou horas por dia, ou apenas minutos de algumas horas, sob a pomposa designação Tempo de Qualidade com os Miúdos.
O alívio é quase imediato. Está agendado, é como se já estivesse feito, habituados que estamos a cumprir horários, a executar
tarefas e a alcançar metas. Acontece que, à hora marcada, o tempo está lá, mas a qualidade tarda a chegar. Os miúdos estão
insuportáveis, barulhentos, implicativos, cheios de sono, de fome ou apenas virados para outro lado e os pais cansados e a
calcularem, na balança do dever e do haver, o deficit de atenção para consigo mesmos: nem um segundo para si próprios durante
o último mês, talvez até durante o último ano. E logo nessa precisa hora, marcada sob a sonhadora designação Tempo de Qualidade
com os Miúdos, um documentário na televisão que tanto gostavam de conseguir ver do princípio ao fim, para variar.
É
o universo do mal a conjurar contra as agendas pessoais dos pais, a ditar outros tempos e outras qualidades. Passa a hora
determinada, da alegada qualidade, os miúdos já na cama, e os pais a sonharem com a sua própria cama. Das muitas qualidades
que o tempo tem, apenas duas estão garantidas: o tempo passa e o tempo esgota-se.
Idealizar que a qualidade pode
ter hora marcada é um erro crasso fruto de uma enorme, ainda que bem-intencionada, ingenuidade. A felicidade não se agenda.
O tempo de qualidade acontece quando acontece, quando menos se espera, por vezes fora de qualquer programa, sublinhando a
marcador grosso e fluorescente a sua arrogante e caprichosa extemporaneidade.
O tempo de qualidade é aquilo que
fica no coador da felicidade e que a memória depois apura. Soma-se a este engenhoso e subjectivo filtro o facto de que aquilo
que os pais entendem por qualidade não ser o que é recebido e entendido pela criança como um tempo bom, divertido e entusiasmante.
Um tempo que gostariam mesmo, mesmo, de repetir.
As gargalhadas nem sempre se colam às piadas, e a felicidade surge
de coisas e momentos inesperados, daqueles que é impossível antecipar a caneta numa página de agenda. O tão almejado Tempo
de Qualidade é igual ao requeijão (não acredita?), para chegar a ele são precisos muitos litros de leite. A qualidade é aquilo
que se apura depois de muito e muito tempo juntos, a partilharem muitas horas, umas boas outras más, outras assim-assim, depois
de se viver muitas coisas, de se conversar sobre isto e mais aquilo, a conhecerem-se mais e mais, a aprenderem um com o outro,
a dividirem choros e a multiplicarem risos.
Sem muito tempo não surge qualidade. Por isso, a solução é mesmo passar
muito tempo com os miúdos, em vez de almejar graus superlativos e absolutos de grandeza. Mais, por vezes é mesmo mais, e só
a quantidade de tempo passado juntos pode construir qualidade. Por isso, e agora que o bom tempo se adivinha, é tempo de passar
mais tempo com os miúdos. Talvez também por isso, por não se poderem antecipar nem agendar dias bons, também as férias de
Verão são grandes e quem as inventou sabia bem como o tempo é matreiro. Assim, num maior número de dias, há mais possibilidades
de conseguir mais momentos de felicidade. Quantos momentos desses caberão nestas férias?
Marina Ribeiro (mribeiro@mce.iol.pt)
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Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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Último comentário
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1Orlanda Rocha
ler todos os comentários »2010-06-28 19:04h
Comunas no Bem Bom
Não posso conceber,a D.judide e o Sr.Gil do Carmo,fotografados na inauguração da Loja Prada.Para eles só se deviam vestir no CONTINENTE SUPERMERCADOS.Acho uma ofensa!
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