Esta tradição, tão enraizada entre muitos pais e mães, é um dos maiores mitos da disciplina. Desenganem-se todos: os sermões,
pura e simplesmente, não funcionam.
Depois de um sermão começar, a criança «desliga» antes
de acabarmos a segunda
frase, pois não consegue aturar mais do que algumas frases diretas, simples, curtas e simpáticas. Esta, sim, é a linguagem
que os nossos filhos entendem.
As crianças, principalmente as mais novas, pensam de uma forma egocêntrica e concreta,
pelo que a nossa linguagem tem de se adaptar a elas, se queremos ser eficazes na mensagem a transmitir.
Grandes
e demoradas considerações sobre o bem e o mal são completamente ineficazes. Se fazemos considerações muito elaboradas, elas
perdem os pontos principais.
O ideal é a criança perceber o (pouco) que lhe dizemos e conseguir antever e chegar
ela própria às conclusões, sem estas precisarem de ser ditas por nós. Desta forma aprendem muito melhor o que lhes queremos
transmitir.
As melhores oportunidades para comunicar são geralmente as mais simples: enquanto vamos de carro para
a escola, quando estamos a pôr a mesa para o jantar, a arrumar o quarto ou a brincar. Estas são oportunidades a agarrar, em
que a criança ouve o que lhe queremos dizer de uma forma informal, descontraída e geralmente eficaz.
O sermão, mesmo
bem intencionado, não ensina a criança a resolver o problema por si, e pode mesmo fazê-la sentir-se diminuída, envergonhada
ou incompetente por não ter sido capaz de resolver a situação sozinha.
Desta forma, o sermão impede a criança de
tomar as suas decisões, boas ou más, e de aprender com elas. Impede que os nossos filhos desenvolvam competência para a resolução
dos problemas enquanto destrói a confiança neles mesmos.
Acentuar a incompetência é uma das melhores formas de destruir
a confiança. O melhor que temos a fazer é falar pouco, de uma forma clara e concreta, e ajudar as crianças a
descobrirem
as suas forças, que as podem levar a resolver os seus problemas.
O nosso objetivo deve ser o de transformar um falhanço
não num drama, mas numa oportunidade de aprendizagem. Por vezes temos de puxar pela imaginação quando queremos ensinar algo
aos nossos filhos.
Como regra, é importante perceber que a criança assimila muito mais facilmente qualquer ensinamento
se for ela a chegar a ele, ao contrário de simplesmente ter escutado os pais numa pequena dissertação sobre o tema.
O
melhor é guiar a criança ao longo da conversa, para que cada passo em frente seja dado por ela até chegar à conclusão que
pretendemos e tomá-la como sua. É como se tivéssemos um guião escondido e levássemos a criança através dele até que ela chegue
(brilhantemente!) à conclusão certa.
Noutros casos podemos explorar situações hipotéticas. «O que fazias se...»
pode levar a criança a perceber que determinadas opções acarretam determinadas consequências. O pai ou a mãe podem mesmo fazer
um papel enquanto a criança faz o outro, como num teatro simulado. Esta é uma forma criativa de os pais ensinarem e de a criança
aprender, pois não teme qualquer represália uma vez que tudo não passa de
uma encenação. Mas, ao mesmo tempo, vai assimilando
qual a atitude correta, que terá mais facilidade em pôr em prática quando uma situação real acontecer.
Por fim, podemos
tirar partido dos múltiplos estímulos a que os nossos filhos estão sujeitos, como a televisão, a rádio ou os jornais. Ver
em conjunto um programa (ou uma novela), e ir discutindo se as atitudes que presenciamos são
ou não as mais corretas,
pode ensinar aos nossos filhos muito sobre a forma como vemos a vida e mostrar-nos a nós próprios muito da forma como eles
encaram a sua vida e os seus problemas.
Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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