Quando pensamos em Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA), surge-nos imediatamente a imagem de um rapaz
mexido e malcomportado. No caso das raparigas é diferente, pelo perfil inerente ao género. São menos rebeldes ou desafiantes,
menos impulsivas ou agitadas, geralmente não tão ¿difíceis¿, tornando por isso o diagnóstico ainda mais complexo.
Estas
raparigas são frequentemente deixadas «à deriva», apresentando um rendimento abaixo do seu potencial, ainda que mediano ou
«satisfatório». Este aspecto pode camuflar e dificultar o diagnóstico. Quanto mais inteligentes, mais tarde manifestam as
dificuldades características da perturbação, pois só com o aumento da exigência as suas fragilidades se tornam evidentes.
As raparigas com défice de atenção não se comportam todas da mesma maneira. As «maria-rapaz» são fisicamente activas,
atraídas por tudo o que implique risco, como subir às árvores.
Gostam de brincar com rapazes, sentindo-se menos atraídas
por actividades tipicamente femininas. Desorganizadas por natureza, podem sair a correr porta fora para a próxima actividade,
deixando para trás tudo desarrumado. Os pais e professores destas raparigas percepcionam-nas como indisciplinadas e pouco
dedicadas às tarefas escolares. Por outro lado, as «sonhadoras acordadas» - que passam muitas vezes despercebidas - são geralmente
tímidas, lentas e esquecidas, perdem-se nos seus pensamentos e apresentam um comportamento calmo. Parece que estão a ouvir
a professora, e no entanto os seus pensamentos estão longe da aula. No momento de fazer os trabalhos de casa, continuam silenciosamente
a «sonhar acordadas», sentadas à frente dos trabalhos sem os realizar.
Podem desenvolver outras perturbações, como
depressão ou ansiedade, e por vezes serem consideradas menos «brilhantes» do que são na realidade. Por fim, surgem as «tagarelas»,
uma combinação das desatentas com as hiperactivas/impulsivas. Estas raparigas têm um nível mais elevado de actividade do que
as «sonhadoras acordadas», contudo não são necessariamente «maria-rapaz».
São muito faladoras, excitáveis e vivem
intensamente as suas emoções. Conversam constantemente nas aulas, e têm dificuldade em permanecer caladas mesmo quando são
repreendidas.
Interrompem os outros e saltam de assunto em assunto durante uma conversa. É-lhes difícil resumir uma
história ou filme. Por vezes, interrompem-se a si mesmas ou contam as histórias de uma forma muito confusa, porque têm dificuldade
em organizar o seu discurso.
Socialmente, são líderes, activas e divertidas. As suas amizades podem ser vividas
de uma forma muito dramática, cheias de reacções excessivas e discussões, assim como podem adoptar uma personalidade «tonta»,
pela dificuldade em se organizarem e esquecendo-se do que têm de fazer. Durante a adolescência, podem apresentar rendimento
escolar baixo por se tornarem hiper-sociáveis e desinvestirem nos estudos.
Como foi referido, grande parte da população
feminina com PHDA não está identificada, e «sofre em silêncio», sem alcançar o seu potencial máximo, o que conduz a sentimentos
de frustração constantes.
O custo social é elevado, os problemas de socialização têm início na idade pré-escolar
e tendem a piorar se não houver intervenção, atingindo o auge na adolescência. O facto de algumas terem poucos amigos e de
serem frequentemente excluídas contribui para uma auto-estima muito baixa, que se pode prolongar pela vida adulta.
O
programa de intervenção mais eficaz com estas raparigas passa pela conjugação de acompanhamento psicológico com a intervenção
farmacológica. A psicoterapia deve ter como objectivo trabalhar estratégias que promovam uma boa adaptação aos diferentes
contextos de vida, mas deve incidir essencialmente na promoção da auto-estima, tão frequentemente afectada nestes casos.
Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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