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Internacional
Philip, o homem que abdicou de quase tudo para ser o mais leal dos súbditos de Isabel II
Príncipe Philip 1921-2021 - Capa Lux 1094
Redação Lux em 23 de Abril de 2021 às 16:00

Morreu a dois meses e um dia de completar 100 anos, a 9 de abril. Philip de Edimburgo foi, durante 73 anos, o mais fiel dos súbditos de Isabel II e o seu maior apoio nos bons e nos maus momentos. Com um sentido de humor peculiar, muitas vezes polémico, conhecido por cometer muitas gaffes e por nem sempre ter bom feitio, Philip foi mais do que o príncipe consorte que tinha de caminhar dois passos atrás da sua mulher e ser a sua sombra.

Quando chegou à família real era desprezado pela corte e pelos elitistas e protocolarmente rígidos conselheiros e secretários pessoais da casa real. Para casar com Isabel II teve de se tornar cidadão britânico, mudar de religião, abdicar de títulos, da vida na Marinha e da vida social.

Porém, ao longo do tempo fez-se ouvir, e com o consentimento da rainha, acabou por deixar uma marca inegável na modernização da monarquia britânica. Philip encontrou o seu lugar ao lado da mulher, mantendo sempre o perfil discreto necessário a um consorte, que não pode nunca ofuscar a rainha. Era essa mesma discrição que esperava dos membros que iam entrando para a família real por casamento. Sabia o quão difícil era ser aceite e encontrar uma posição confortável junto da família e, por isso, sempre compreendeu as dificuldades de Diana de Gales, Kate Middleton ou Meghan Markle, mas nunca perdoou às mulheres de Carlos e de Harry, o facto de terem exposto em público, segredos íntimos ou mostrado fragilidades e emoções.

Philip nunca falou publicamente de sentimentos, ou de como era ser marido da rainha. Numa carta que escreveu à ainda princesa Isabel, a quem tratava por Lilibet, em 1946, pode ler-se: “Ter sobrevivido à guerra e ter visto a vitória, ter tido a oportunidade de parar e reajustar-me, ter-me apaixonado completamente e sem reservas, faz com que todos os problemas pessoais e do mundo pareçam muito pequenos.” Seis anos depois de se terem casado, Isabel II subiu ao trono e o marido ajoelhou-se para lhe prestar juramento: “Eu, Philip, duque de Edimburgo, submeto-me a vós de corpo e alma e prometo a minha adoração terrena.” Até 2017, ano em que deixou a vida pública, cumpriu.

Durante os 73 anos, quatro meses e 21 dias, em que esteve casado com Isabel II, Philip assistiu a mais de 22 mil atos públicos a solo, 637 visitas a outros continentes, visitou mais de 140 países, proferiu 5493 discursos e esteve envolvido em cerca de 780 organizações sociais. Philippos zu Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg, príncipe da Grécia e Dinamarca, nasceu na Grécia, no dia 10 de junho de 1921, filho do príncipe André da Grécia e da princesa alemã Alice de Battenberg.

Conheceu muito cedo o exílio, a família viu-se obrigada a sair do país quando ele tinha 18 meses, mas sobretudo o abandono familiar. Em 1930, quando tinha 8 anos, a mãe foi internada numa clínica psiquiátrica com um quadro de esquizofrenia e o pai refugiou-se na Riviera Francesa com uma amante. Foi a família materna, no Reino Unido, que ajudou a criá-lo. Mais tarde, adotaria o sobrenome Mountbatten, para se distanciar das raízes alemãs, mal vistas no pós-guerra.

As quatro irmãs mais velhas casaram-se, cada uma com um príncipe alemão, e Philip tinha 12 anos quando foi enviado para o colégio interno Gordonstoun, na Escócia. Com um regime muito rígido, o diretor Kurt Hahn acreditava que através do despertar madrugador, banhos gelados ou rigorosos treinos físicos, os alunos se tornariam autossuficientes e combateriam as paixões da adolescência.

Em 1937, aos 16 anos, Philip recebeu uma das piores notícias da sua vida, a sua irmã mais próxima e seu principal apoio, Cecilie, que estava grávida, morreu num acidente de avião com o marido e os dois filhos pequenos. De luto, Philip caminhou pelas ruas de Darmstadt atrás do caixão. Uma imagem que veria repetida vários anos depois quando os netos, William e Harry, caminharam atrás do caixão da mãe, Diana de Gales.

Numa das raras entrevistas que deu, confrontado sobre como lidou com a sua perda disse: “Foi simplesmente o que aconteceu. A família separou-se. A minha mãe estava doente, as minhas irmãs eram casadas, o meu pai estava no sul da França. Eu simplesmente tinha de lidar com tudo isso.”

Philip entrou para a Marinha Real Britânica aos 18 anos, e foi nessa altura que conheceu a jovem princesa Isabel, então com 13. Com a II Guerra Mundial a acontecer, Philip serviu do lado das forças britânicas, enquanto tenente de um navio de guerra. Por essa altura, os jovens príncipes começaram uma troca de correspondência que os levaria ao noivado.

Depois da guerra, Philip recebeu permissão do rei para se casar com Isabel, sua prima em terceiro grau. Abandonou os títulos gregos e dinamarqueses, converteu-se à igreja anglicana e naturalizou-se cidadão britânico. O casamento aconteceu no dia 20 de novembro de 1947, após cinco meses de noivado. Nenhuma das irmãs de Philip esteve presente, devido às suas ligações alemãs. Com o casamento, Philip
recebeu o título de duque de Edimburgo.

Ao lado da rainha, foi pai de Carlos, hoje com 72 anos, Ana, de 70, André, de 61, e Eduardo, de 57. Os filhos não receberam o seu apelido, uma mágoa eterna para o duque.

Em 1997, por ocasião das comemorações dos 50 anos de casamento, a rainha abriu pela primeira vez o coração para se declarar publicamente ao homem que amou toda a vida: “Ele é uma pessoa que não aceita elogios facilmente, mas tem sido, simplesmente, a minha força e a minha estabilidade durante todos estes anos. E eu, toda a sua família, assim como este e muitos outros países, temos para com ele uma dívida muito maior do que aquela que ele alguma vez reclamaria para si, ou que possamos imaginar.”

Depois de mais de sete décadas ao serviço da coroa britânica, Philip deixou os deveres públicos. Os seus últimos dias foram passados ao lado da mulher a quem dedicou a vida, no Castelo de Windsor.
O funeral oficial será familiar e não de Estado, seguindo a sua última vontade e também as restrições da pandemia. As cerimónias aconteceram no dia 17 de abril, na Capela de São Jorge, no Castelo de Windsor, na presença de apenas 30 pessoas.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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