Depois de anos como anfitriã e promotora de debates culturais no principado, Charlotte Casiraghi lançou o primeiro livro a solo. Em 2018, a filha da princesa Carolina já tinha sido coautora de “Archipel des passions”, com o filósofo Robert Maggiori, mas “La Fêlure” (“A Falha”) marca a sua primeira obra a solo. O livro, que cruza literatura e filosofia, é uma reflexão sobre a fragilidade humana, o trauma e a arte de conviver com as próprias feridas.
O lançamento aconteceu na recém-inaugurada Biblioteca de Média Princesa Carolina, no Mónaco. “La Fêlure” não é, nas palavras da sobrinha de Alberto II, um tratado, um romance ou uma confissão, mas “um percurso, uma série de variações sobre um único tema, de que, se algo em nós está partido, tanto melhor”. Essa fratura, ou fenda, é o fio condutor de uma trama intelectual marcada por autores que influenciaram a sua trajetória. Inspirado num conto de F. Scott Fitzgerald, atravessa referências a Ingeborg Bachmann, Colette, Marguerite Duras ou Anna Akhmátova.
“A minha mãe é uma grande leitora, o meu bisavô, o príncipe Pierre de Polignac, que era amigo de Proust e de Valéry, tinha uma biblioteca extraordinária com primeiras edições de obras e grandes tesouros literários”, disse em entrevista à rádio francesa RTL.
Na obra, Charlotte faz a comparação entre a vida e o andar a cavalo, um dos seus hobbies favoritos. Afirma que “cair é inevitável, mas aprender a levantar-se constrói força e autoconfiança” e defende um “espírito alegre” e a capacidade de transformar desafios em resiliência.
Ao abordar a maternidade, assume que não busca a perfeição. Na mesma entrevista à rádio, ao ser questionada sobre que tipo de mãe é, Charlotte responde: “Espero ser suficientemente boa. Não tenho a certeza de o ser sempre. Tento fazer o melhor possível com aquilo que sou. Obviamente há imperfeição, mas penso que o mais importante é o amor e o afeto que damos”, diz. E acrescenta: “Há este mito do amor materno que pesa tanto na nossa sociedade: a ideia de que o amor de uma mãe deve ser tudo. Não quero diminuí-lo, mas há tabus e uma culpabilidade para não se falhar. É doloroso e muito difícil”, diz, falando sobre o peso que a maternidade, no caso de mães que trabalham, muitas vezes comporta. “Ter filhos é uma enorme pressão emocional e física, e muitas mulheres sentem-se divididas ou observadas quando trabalham muito ou reivindicam tempo para si. É uma realidade que os homens geralmente não vivem da mesma forma.”
Apesar de não ter o título de princesa nem obrigações reais, Charlotte ocupa o 12.º lugar na linha de sucessão ao trono do principado. Sempre preferiu viver afastada dos holofotes, mas a sua vida foi seguida desde o dia em que nasceu. Segunda filha de Carolina do Mónaco e de Stefano Casiraghi, a realidade tal como a conhecia, mudou drasticamente dois meses após completar o quarto aniversário. O pai, competidor em corridas de lanchas, detentor do recorde mundial de velocidade e campeão mundial em título, corria a 200 km/h na costa monegasca quando o catamarã onde seguia capotou. O colega, Patrice Innocenti, foi catapultado e sobreviveu, Stefano ficou preso no assento e teve morte imediata. Tinha 30 anos. Carolina do Mónaco ficou viúva aos 33, com os três filhos do casal, Andrea, de 6 anos, Charlotte, de 4, e Pierre, de 3. Para se afastar do mundo e do mediatismo, a princesa mudou-se com os filhos para uma pequena localidade na província francesa. Foi lá que Charlotte cresceu até a mãe ter forças suficientes para renascer e voltar ao principado.
Estas experiências foram moldando Charlotte que, mais tarde, começou a escrever como forma de processar dor e vulnerabilidades. “Escrevia quando estava triste ou zangada. Tornou-se um espaço de expressão. Hoje, vivemos na era do trauma. Todos podemos e devemos contar as nossas feridas, mas há o risco de nos tornarmos apenas essas feridas.” Aos 40 anos, Charlotte é mãe de Raphaël, de 12 anos, da relação com o ator Gad Elmaleh, e de Balthazar, de 7, do casamento, já terminado, com o produtor de cinema Dimitri Rassam. Atualmente, vive uma relação com o escritor Nicolas Matthieu.







