Nacional
Kate e Gerry McCann: 'Necessitamos saber o que aconteceu, pois precisamos encontrar a paz'
Kate e Gerry McCann em entrevista para a BBC - abril de 2017 Foto: Reuters
Nair Coelho em 20 de Junho de 2020 às 18:00

O que aconteceu a Maddie McCann na noite em que desapareceu, com 3 anos, no aldeamento onde passava férias com os pais, na Praia da Luz, no Algarve, pode estar próximo de ser desvendado.

Para Kate e Gerry McCann, os acontecimentos da última semana reacenderam a esperança de voltar a ver a filha com vida, um cenário que a polícia alemã descarta.

“Assumimos que a menina esteja morta”, disse o responsável alemão pela investigação, sem dar mais explicações. Ansiosos e à espera de novidades a qualquer instante, o casal britânico falou através do seu porta-voz, revelando como está a viver este momento: “Tudo o que sempre desejámos foi encontrá-la, descobrir a verdade e levar os responsáveis à justiça. Seja qual for o resultado, necessitamos saber o que aconteceu, pois precisamos encontrar a paz.”

Treze anos depois do rapto, há elementos concretos e não apenas suspeitas que levam as polícias britânica e alemã a acreditar que Christian Brueckner, um alemão que viveu em duas casas perto do aldeamento turístico onde os McCann passavam férias, será o responsável pelo desaparecimento de Maddie.

A polícia sabe que o indivíduo, que se encontra atualmente a cumprir pena de prisão na Alemanha, por abuso sexual de menores e violação de uma idosa no Algarve, terá entrado no apartamento alugado por Gerry e Kate McCann, enquanto Maddie e os irmãos gémeos dormiam, com o intuito de o assaltar. O rapto não estaria planeado, mas, por motivos desconhecidos, acabou por acontecer.

Os alarmes soaram quando numa conversa num bar com um amigo, Christian Brueckner, de 43 anos, afirmou saber “tudo o que tinha acontecido a Maddie”, dando a entender que tinha estado envolvido no caso. A seguir mostrou um vídeo dele a violar uma mulher. O amigo fez queixa às autoridades alemãs que, entretanto, revelaram pormenores sórdidos sobre a vida deste homem, que esteve no local do crime, na noite de 3 de maio de 2007. Há também um telefonema à hora do desaparecimento de Maddie e a mudança do nome do registo de um dos dois automóveis de que era proprietário – um Jaguar XJR 6 e uma Volkswagen T3 Westfalia, onde dormia em 2007, e cujo paradeiro a polícia procura, pedindo a ajuda da população. Pouco tempo depois, saiu de Portugal.

Para além dos assaltos a hotéis e casas de férias e tráfico de drogas, sabe-se agora que Christian Brueckner era mais perigoso do que aparentava. Num quiosque que explorava, em Braunschweig, Alemanha, tinha por hábito oferecer peluches às crianças que por lá passavam a caminho da escola primária, e permitir que crianças com apenas 9 anos trabalhassem para ele. Foi na altura, em 2014, que durante uma conversa entre funcionários se exaltou de forma inesperada. O tema era o caso Maddie
McCann.

“Perdeu completamente a cabeça! Queria que acabássemos com o tema e gritou: ‘Parem de falar sobre isso. A criança está morta e pronto. Os porcos também comem carne humana’”, garante Lenta Johlitz, antiga funcionária do quiosque.

Naquele tempo, Christian vivia com uma rapariga de 17 anos, que, segundo a imprensa alemã, era maltratada e estrangulada, acusações que foram corroboradas por um homem que conheceu o suspeito em 2012.

Numa corrida contra o tempo, uma vez que o suspeito pode sair brevemente em liberdade, pois aguarda o resultado de um recurso apresentado contra a sentença, a polícia deposita esperança em encontrar uma mulher que terá estado com Christian Brueckner na altura do crime.

Para além dos desenvolvimentos no caso de Maddie, a polícia britânica, em conjunto com a Polícia Judiciária portuguesa e a polícia alemã, acredita que o alemão está ainda relacionado com a morte de uma adolescente, em 1996, e o desaparecimento de outras duas crianças, cujo paradeiro nunca foi descoberto. É o caso de Carola Titze, encontrada morta em 1996, seis dias depois de ter desaparecido do resort belga onde passava férias com a família; René Hasee, um rapaz de nacionalidade alemã, que desapareceu em Aljezur a 21 de junho de 1996; e Inga Gehricke, a menina alemã, de 5 anos, que desapareceu na Alemanha a 2 de maio de 2015.

Sem certezas de nada, e apenas agarrados à esperança, Gerry e Kate McCann revivem o episódio que tragicamente marcou as suas vidas, solidários com os pais das outras crianças que poderão ter desaparecido às mãos de Christian Brueckner.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
Comentários

pub
pub
Outros títulos desta secção