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Nacional
Alta Costura por Filipa Guimarães: 'Um algoritmo sem ritmo nenhum'
Alta Costura na Lux por Filipa Guimarães, jornalista e escritora Foto: Carlos Ramos
Redação Lux em 1 de Outubro de 2020 às 18:00

UM ALGORItMO SEM RITMO NENHUM

Para quem não é matemático, programador informático nem gestor de marketing, o termo algoritmo* é ainda quase tão abstrato para os utilizadores da internet como as previsões astrológicas do Zandinga nos anos 80. Aos poucos, nós, os leigos, vamos começando a perceber que ele “anda aí” em força, pronto a pespegar-nos com algum produto, curso ou sugestão comercial. Pelo menos já sabemos que usa os nossos dados (idade, interesses, comentários, likes) para objetivos concretos. Há vários tipos de algoritmos, que diferem conforme estejamos no Facebook, Instagram ou a pesquisar no Google e em que momento estamos. Dos likes aos clicks, dos comentários ao tempo que ficamos a ver um post (uma publicação), tudo é monitorizado com vista a criar conteúdos que mudam necessidades de consumo e comportamentos. Quem já viu os filmes “O Escândalo da Cambridge Analytica” ou “O Dilema das Redes Socais” (Netflix), documentários que recomendo vivamente, fica a perceber melhor o lado mais oculto e perigoso do (mau) uso e cruzamento dos nossos dados pessoais. Mais do que nunca, as novas tecnologias andam à frente das leis e dos regulamentos de proteção de dados e com propósitos nem sempre declarados. Porém, nem tudo são ameaças e conspirações geopolíticas. Se há finalidades ocultas e atentatórias da nossa liberdade, outras existem com objetivos mais claros, como vender produtos e serviços. Só que há algoritmos e algoritmos. Uns fazem sentido, na “ótica do utilizador”, outros nem por isso. Tem a ver com várias coisas cuja explicação não sou capaz de dar. E, muito menos, perceber. Há coisas muito estúpidas a passarem-me à frente dos olhos sempre que navego na internet. Esta semana, ao fazer uma “limpeza” do meu Facebook das coisas que já não me interessam, abri uma página que tinha guardado de “empregos sugeridos”. Tinha lá uma data de propostas com base no meu “histórico profissional e em empregos populares” (na SIC). Para além das ofertas estarem todas no masculino (já nem dá para ligar!), pareciam ter sido baseadas num outro perfil que não o meu. Então, o algoritmo propunha-me as seguintes atividades: supervisor de moinho de papel, guardião ad litem, operador de tratamento de resíduos líquidos e triturador de aço. Esta última levou-me às lágrimas. Não faço a mais pequena ideia de como chegaram até aqui... O que é que eu terei estudado ou escrito para chegarem a tão mirabolantes ideias?

*Algoritmo: Conjunto de regras e operações bem definidas e não ambíguas, que, aplicadas a um conjunto de dados e num número finito de etapas, conduzem à solução de uma problema, in Dicionário da Língua Portuguesa.  

(Crónica publicada na Lux 1065 de 28 de setembro de 2020)

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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