Nacional
Alta Costura por Filipa Guimarães: 'Quem é que quer ser “pet sitter”?'
Alta Costura na Lux por Filipa Guimarães, jornalista e escritora Foto: Carlos Ramos
Redação Lux em 3 de Setembro de 2020 às 18:00

Quem é que quer ser “pet sitter”? por Filipa Guimarães

Pois é. Aquilo que, “no antigamente”, pedíamos à vizinha para fazer – ir dar de comer ao nosso cão ou gato (e que incluía, entretanto, regar também as plantas) –, agora acabou. Ou porque já ninguém se oferece para nada ou porque há uma carreira em ascensão chamada “pet sitter”, em português algo como “cuidador de animais domésticos”. Basta fazer uma pesquisa na internet e as ofertas surgem em catadupa, desde as opções “low-cost” a hotéis com serviço in e outdoor. Para não falar dos hospitais veterinários com cuidados especializados para a condição de saúde do utente. Compreende-se quando o animal esteja a tomar remédios ou a precisar de cuidados veterinários e o dono tenha de se ausentar ou não lhe consiga administrar, por exemplo, antibióticos ou soro. Até à data, eu não precisei ainda de pagar as diárias destes sítios. Agora, vou uns dias de férias e preciso de quem me dê de comer à Vera, a minha gata, companheira de todos os dias e noites. Isto porque a minha empregada fez-me a maldade de desaparecer do mapa sem aviso, depois de eu ter caído no erro de lhe adiantar o pagamento mensal, para mim uma garantia extra de que ela não me deixaria o animal sozinho. Enfim, um erro que não tenciono repetir, para minha tristeza. Gosto de confiar nas pessoas. Parti, então, para um apelo no Facebook, que não surtiu efeito. Em agosto, nenhum conhecido meu estava virado para vir tratar do meu bicho (tenho de voltar a rever a lista de amigos nas redes sociais...). Foi, então, que pensei nos filhos e filhas dos meus amigos. É natural o seu gosto por animais. Que tal pedir-lhes ajuda?! A Salomé tem 9 anos e já trata de um coelho. Sei que gosta de juntar uns trocos para grandes projetos e juntei o útil ao agradável, com a devida permissão materna. Esperta e muito autónoma para a idade que tem, é claro que se entusiasmou. Mas a “chatice” é que a boa Salomé tem de voltar à escola e a mãe dela à tarefa de a acompanhar nesse (ainda) tão incerto regresso. Por isso, não tive outro remédio senão “contratar” outra pessoa para os dias seguintes. Claro que para a Salomé isto é um part-time pedagógico, cujo rendimento não lhe dará para muito. Nem eu iria sobrecarregá-la na sua única “profissão”: a de estudante. Pois a “pet sitter” pede-me três vezes mais do que a Salomé. Claro que vive disso, vem de fora de Lisboa, gasta gasolina, paga parque e anda todo o dia nisto. Porém, e com toda a consideração por este tipo de serviço profissionalizado muito útil, confesso que fiquei muito nervosa. Porque a profissional encartada deu-me tantas, mas tantas dicas e sugestões e alertas de risco, que quase fiquei a achar se isso seria para justificar a quantia solicitada, ou se seria uma dona inconsciente em vias de ser acusada de maus-tratos a animais. Por exemplo, fiquei a saber que nunca, mas nunca, devo deixar uma frincha de uma janela aberta, porque ela se pode atirar da janela. Em 12 anos, nunca o fez... “Por favor, não feche essa janela”, implorei. “Eu prefiro ter a responsabilidade da queda a sabê-la aqui sem arejar”, expliquei-
-lhe. Depois já era o risco das latinhas de comida (aquelas de abertura fácil) poderem cortar-lhe a língua. Nessa altura, já em vias de tomar um calmante, disse-lhe mesmo: “Por favor, não me meta mais medo! Assim, não sou capaz de ir de férias!” Moral da história: às vezes, é melhor não justificarem tanto os custos nem o profissionalismo. Porque o resultado pode ser só um: a desistência.

Crónica publicada na Lux 1061

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Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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