Nacional
Pote de água por Tiago Salazar: ' Porteiro da Noite'
Tiago Salazar
Redação Lux em 3 de Setembro de 2020 às 10:00

PORTEIRO DA NOITE por Tiago Salazar

Isto começou assim. Era a era dourada do Jornalismo (com caixa alta). Quando aos jornalistas não estava vedado o princípio de irem a todas e com tudo. A obediência devia-se apenas e tão somente à escuta e à escrita da verdade. Sem andar à babugem de cobres encapotados em publicidade, porque os jornais vendiam-se pelo que contavam, arriscavam e continham. Os chamados conteúdos. Por vezes, havia que vestir o hábito para se conseguirem as estórias mais insólitas. Um dia, enquanto repórter do Tal & Qual, fui bater à porta do camarada Cunhal para lhe vender um plano de adesão à TV Cabo, onde me empregara para gozar de credibilidade.
Não passei da soleira, onde fui atendido pela Fernanda Barroso, a sua companheira de longos anos. Tinha esperança de ser recebido numa sala com um psiché ornado de bustos de Marx, Engels e Lenine, e diante de um samovar ou um copo de três a transbordar de vodka, extrair elementos para a crónica de um encontro clandestino com o grande líder.
Fernanda despachou-me com gentileza, não sem antes me desejar boa sorte nas vendas, e me perguntar se as condições de trabalho eram dignas, quase a ponto de dizer que se precisasse de alguma coisa passasse pela Soeiro Pereira Gomes. Assim se gorou uma visita ao poder, mas não deixaria de contar no jornal o mesmo que agora te conto com outros recortes literários.
O Tal & Qual não colhia amizade no partido e uma proposta de entrevista pelas vias normais seria negada. A ideia, de resto, era infiltrar um repórter afoito na casa do líder mais zeloso da sua intimidade, e dali sair com prosa para um texto neo-realista.
Ora, uma das reportagens mais espantosas que pude assinar e protagonizar (na dupla faceta de repórter de jornal, do Tal & Qual, e televisão, do República & Bananas, apresentado pelo preclaro Jorge Letria e onde pontuava o grande chefe José Paulo Fafe) foi o dia (a noite) em que me fiz porteiro da Kapital, a discoteca da moda nos anos 90, dos famigerados irmãos Rocha. Até ao dia em que propus aos Rocha a ideia de vestir o smoking e passar uma noite à porta da discoteca para testar a reacção dos habitués, era persona non grata e tinha a entrada vedada por conta de não irem com a minha pinta de beto radical. Achei que ia levar uma tampa, mas os Rocha acharam piada à ideia e alinharam. Fui então alugar um smoking ao Parque Mayer, onde vestiam os artistas.
Por casualidade vim a trajar o mesmo smoking usado pelo Herman José nas rábulas do Senhor Contente e do Senhor Feliz, ao lado do partenaire Nicolau (Breyner). Isto quando o Herman era magro.
Postei-me assim às 23h ao lado de um guarda-fatos a quem incumbiram da minha vigilância, não fora o caso de desviar uns trocos das entradas cobradas.
Tinha um microfone escondido e do outro lado da linha de comboio o realizador Filipe Terruta, de câmara em punho, a registar todos os meus passos e diálogos. Era a estreia do Terruta em TV, ainda um puto de talentos por firmar e que ali veio a mostrar a massa genial de que era feito. Estava em gáudio o Terruta, com a quantidade de papelinhos que as moças bem apessoadas me enfiavam nos bolsos com os seus telefones. Lembro dele me bichanar ao pavilhão auricular: “Guarda umas para mim!”
Mantive-me no posto o resto da noite e entre várias conquistas de missivas, que se adivinhavam a cereja no topo do bolo desta reportagem inaudita, pude verificar como a coisa se dava no mundo da noite. Tinha instruções para deixar entrar todos os que tinham um penteado à fôdasse, que é como quem diz a betaria, mas decidi implementar a cobrança do consumo mínimo, dez brasolinas de conto. Foi o escândalo e gerou-se um motim a pedirem-me o escalpe aos manos Rocha. Alguns despeitados atiravam-me os dez mil réis para o chão achando que assim conquistavam o direito de entrada. Deixava as notas no macadame, que o guarda-fatos devolvia incrédulo, e barrava-lhes a entrada sem pestanejar, abrindo a dobra do smoking e mostrando-lhes em silêncio a coronha de uma Magnum repousada num coldre de tiracolo à John Dillinger. Assim continuaria o resto da noite, até ser dispensado da actividade e poder enfim ir ao encontro do número que me parecesse mais afectivo. Escolhi por mero acaso um terminado em 69 e terminei a noite no banco detrás do meu Datsun 1200.

Crónica publicada na Lux 1061

 

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Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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