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Andreia Paes de Vasconcellos: 'Dizem que o amor cura tudo, e eu confirmo. Foi na minha família e nos amigos que me refugiei, que curei a minha alma'
Andreia Paes de Vasconcellos com o marido, Bernardo e os filhos, Tomás, Francisco e Constança Foto: Artur Lourenço/Lux
Redação Lux em 7 de Maio de 2021 às 18:00

Foi às 19 semanas de gravidez, à espera do seu quarto filho, daquela que seria a segunda rapariga, que Andreia Paes de Vasconcellos, de 37 anos, viveu um sofrimento atroz ao receber a notícia de que a filha tinha uma malformação muito grave, que não lhe  iria garantir uma qualidade de vida mínima. Terminava ali uma gravidez muito desejada e vivida intensamente por toda a família.

No processo de luto, confessa que sentiu necessidade de pedir ajuda profissional e, juntamente com o apoio inabalável do marido e rodeada do amor dos três filhos, Tomás, de 6, Francisco, de 5, e Constança de 2, hoje, dois meses passados, Andrea admite que, apesar da “dor traumática”, está resolvida e em paz.

Com a honestidade que lhe é característica, aceitou partilhar o seu testemunho para apoiar e ajudar mães que possam ter passado, ou estar a passar, pela mesma situação. “Infelizmente, são coisas que acontecem mais vezes do que imaginamos, mas que são escondidas. É importante que se fale, para que as pessoas não se sintam ainda mais melindradas, por se acharem únicas quando passam pelas mesmas situações”, salienta.

No final de uma conversa emotiva, Andrea Paes de Vasconcellos garante que faz da Oração da Serenidade um lema de vida. “Concede-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para lidar com as que posso lidar e sabedoria para distinguir umas das outras, ouvir o meu coração e apaziguar o meu ser. Que eu escolha, fazer desta máxima a minha prioridade, tudo tem um propósito e não é o que me acontece que tem mais poder, mas sim aquilo que eu faço com o que me acontece. O poder todo está aí.”

Lux – Há dois meses passou por uma situação muito dolorosa com a perda de uma gestação. Como deu conta do que estava a acontecer?
Andreia Paes de Vasconcellos – É verdade... Talvez o momento mais doloroso que passei na minha vida. Estava com 19 semanas quando recebi a pior notícia que uma mãe pode receber. A minha filha tinha uma malformação muito grave que pouco ou nada lhe daria qualidade de vida. 

Lux – Como se desenrolou na prática o processo?
A.P.V. – Assim que recebemos a notícia, não houve muita escolha. Ficámos sem chão e o racional teve que se sobrepor ao emocional. Era o bem-estar de uma família inteira que estava em causa. Louvo o meu médico e a minha médica, que me acompanharam em todo o processo, que me ampararam, que me mostraram os factos e nos deram toda a liberdade para tomarmos a nossa decisão. Lembro-me de estar numa sala de reuniões com o meu médico e, num silêncio mortífero pelo que se estava a passar, comunicar-lhe a nossa decisão e só aí me deu a sua opinião. “A Andreia e o Bernardo estão a fazer a escolha certa, não existe outro caminho que não esse.” A partir desse dia, o meu médico agilizou todo o processo para que fosse o menos traumático e doloroso possível.

Lux – Qual foi a explicação médica, houve uma causa detetada?
A.P.V. – Sim, uma malformação grave, que, embora compatível com a vida, nunca seria uma criança/adulto com qualidade de vida, além de que a sua esperança média de vida seria muito pequena. Não existe nenhuma razão científica para o que aconteceu. Foi um azar, como disse o meu médico.

Lux – Fisicamente ressentiu-se muito?
A.P.V. – Sim. Sou mãe e mulher. Era no meu corpo que tudo se passava. Era uma dualidade de sentimentos que me corroía a alma. Foi uma rejeição pela barriga que já se notava, a certeza de que ia perder aquela minha filha, de quem, embora tão pequenina, já gostava tanto e a aceitação.

Lux – Disse que aceitou este “caminho curto com dor, mas sem culpas e lamentações”. Como tem gerido essa aceitação? A que se tem agarrado?
A.P.V. – Dizem que o amor cura tudo, e eu confirmo. Foi na minha família e nos meus amigos que me refugiei, que curei a minha alma e recuperei o sorriso. No entanto, o sentimento de culpa não me deixava avançar para o caminho que ambicionava. E senti necessidade de procurar ajuda. Precisava racionalizar tudo o que me tinha acontecido e de atenuar a culpa. Comecei a fazer psicoterapia e naquele dia percebi que não era culpada por nada. Que apenas tinha libertado a minha filha do sofrimento. Desconstruí todo o processo e, desde aí, que aceitei, sem culpas e lamentações. Embora tenha passado por uma dor traumática, sinto-me resolvida e feliz.

Lux – Como reagiram os seus filhos? A Constança ainda é muito pequena, mas o Tomás e o Francisco perceberam o que aconteceu?
A.P.V. – Foi a notícia que mais me custou dar e demorei uns dias a fazê-lo. Nesse entretanto, falei com uma psicóloga para me ajudar, porque não estava suficientemente capaz e com força para lhes dizer. O Tomás e o Francisco estavam muito felizes pela chegada de mais um bebé à nossa família e todos os dias falavam com a barriga, mas eu tinha necessidade de arrumar o assunto na minha cabeça, por isso ganhei força para lhes contar. Expliquei-lhes de forma simples, que os bebés precisavam de ser fortes para nascer e que este bebé estava sem força, por isso não conseguia nascer. Vi nos seus olhares sentimentos de tristeza e desilusão. Perguntaram se não voltariam a ter mais um irmão e respondi-lhes que não sabia. Disse-lhes para perguntarem o que quisessem, porque a mãe e o pai estavam ali para lhes responder. Que era normal ficarem tristes, porque nós também estávamos. Desde esse dia, que nunca mais falaram sobre o assunto.

Lux – O Tomás, que é o mais velho, teve alguma reação inesperada?
A.P.V. – Não, aceitou e não questionou nada. Com a sua sensibilidade inata aqueceu-me o coração quando eu mais precisava.

Lux – Imagino que o seu marido tenha sido um apoio inabalável.
A.P.V. – Ele foi incrível. Esteve sempre comigo desde o primeiro dia. Foi talvez a minha maior força em todo o processo. E a sua maior preocupação foi o meu bem-estar. Embora não tenha estado fisicamente sempre comigo, devido à pandemia, senti-o sempre de mãos dadas comigo. Se a nossa relação já era forte, hoje tenho a certeza de que é inabalável.

Lux – É quase estranho perguntar-lhe isto, agora, passado tão pouco tempo… mas aumentar a família faz parte dos vossos planos? Ou com esta situação algo mudou?
A.P.V. – Entreguei a Deus essa decisão. O que for aceitarei.

Lux – Como está a correr o regresso à escola das crianças?
A.P.V. – Super bem. Eles já estavam a precisar muito da escola, da rotina que só uma escola sabe dar e dos amigos. Nestas idades, a escola é mais do que competências académicas.

Lux – Como corre o seu trabalho no Desenvolve-T? Que impacto está a ter a pandemia no projeto?
A.P.V. – O Desenvolve-T está a crescer. Aos poucos, está a conquistar o seu lugar e peso no mercado, o que me deixa muito realizada e feliz. Queremos ser mais do que um centro de terapias infantil, queremos ser família. E quando aliamos o coração à área técnica tem tudo para correr bem. A pandemia veio mostrar aos pais as verdadeiras dificuldades dos seus filhos, que tantas vezes são camufladas com o stress do dia a dia e, por consequência, sentimos uma maior procura.

Lux – Qual é o seu maior foco agora?
A.P.V. – Neste momento, tenho um grande objetivo, o de ajudar famílias carenciadas com filhos com necessidades especiais. Confesso que as faltas de ajudas do nosso Estado mexem muito comigo, porque estas crianças serão o nosso futuro. E é triste ver que o Estado não ambiciona um futuro melhor para a nossa sociedade. Assim e de forma a igualar as oportunidades, o Desenvolve-T criou um crowdfunding para ajudar famílias carenciadas. Por vezes, basta um euro para tornar a vida de uma família mais feliz. Em termos profissionais, ambiciono, brevemente, abrir um Desenvolve-T no Porto. A nível pessoal, busco o equilíbrio. Equilibrar a minha família e o meu trabalho.

Lux – Como correu este passeio pelo UBBO, agora que finalmente reabriram os shoppings? Foi importante desconfinar com as crianças, este momento de lazer?
A.P.V. – Correu lindamente. Sinto que todos estamos com vontade de retomar as nossas vidas e para as crianças é muito importante o contacto com o exterior. O efeito da pandemia nas crianças preocupa-me particularmente. Eles jamais voltarão a estas idades e há coisas que só se vivem agora. O tempo não volta atrás, por isso, e embora confinada, tento dar-lhes a maior normalidade possível. O regresso ao UBBO não podia ter sido mais divertido. Eles estavam superfelizes e empolgados com este passeio, porque viram pessoas e lojas giras com coisas superapetecíveis e que me levaram a prometer a cada passo que dava, que comprava... Para a Constança foi a primeira vez num centro comercial e foi engraçado vê-la muito atenta a tudo.O pior foi mesmo ter de lhes dizer que tínhamos de nos ir embora.

Lux – Têm planos para as férias de família este verão?
A.P.V. – O meu maior plano é usufruir verdadeiramente da presença da minha família junto ao mar. Este verão procuro liberdade! 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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