Nacional
Pote de água por Tiago Salazar: 'Cicatrizes'
Tiago Salazar
Redação Lux em 13 de Agosto de 2020 às 10:00

CICATRIZES  por Tiago Salazar

Ontem, numa pose ‘iogui’, dei por mim a fixar os olhos numa cicatriz rente ao joelho esquerdo. Percorri então o mapa de todas as cicatrizes deste corpo onde habito vai para quarenta e nove Primaveras. Foi como viajar num relâmpago ao instante do rasgão, tiro ou facada, como se viaja, sem que o pensamento o consiga extirpar, a todos os instantes decisivos. Por exemplo, o dia 4 de Dezembro, por duas vezes me trouxe episódios memoráveis, quando dois seres carregados de cicatrizes se encontram na esperança de sararem as suas feridas invisíveis. A cicatriz do joelho esquerdo desponta na densidade de pêlos como uma clareira na floresta. Resultou de um malho na minha bicicleta Tip-Top contra uma parede quando, por gula lúbrica, desviei o olhar para as pernas da Lúcia. O sangue a jorrar, a jante empenada, o guiador virado do avesso, o garfo partido, a Lúcia às gargalhadas, e tudo se passou como esbarrar num paredão de felicidade.

O lado esquerdo é o meu lado de todos os massacres e chacinas. Um dia, o Joca, um puto de modos aciganados, resolveu cravar-me um x-acto na palma da mão esquerda, tudo porque se achou encurralado por um ajuste de contas da horda de hunos do bairro de Alvalade. Ensopado de OR+ até ao pulso num lenço cheio de ranho cheguei ao posto médico de entranhas à vista, de onde podia ver a brancura elástica do tendão do pai-de-todos numa papa vermelha e grená. Graças à incúria do enfermeiro, que me recambiou para casa de mão atada, só levei uma mão-cheia de pontos no dia seguinte, e no lugar de uma pequena cicatriz tenho um lenho de Frankenstein a cruzar-me as linhas do destino.

Parti uma vintena de ossos e guardo a cicatriz mais singela do choque com a cachola do Godinho, no pátio do bairro de S. Miguel. Chocámos os dois à esquina do refeitório, quando íamos chamar a directora da escola para lhe cantarmos os “Parabéns”. O Godinho vinha largado de uma ribanceira que ligava os recreios e assentou-me a testa em cheio no nariz. Quando olhou para mim desmaiou e temi o pior ao vê-lo sucumbir aterrorizado. Fui a correr à casa de banho olhar-me ao espelho para ver o estrago. A visão reflectida de um buraco no meio da cara, de onde saía um jorro de sangue em catadupa, fez-me desfalecer como se tivesse chegado a minha hora e juntei ao nariz um traumatismo craniano por conta de uma marrada no bidé. Acordei dentro de uma ambulância, entubado e estendido numa padiola, rodeado de maqueiros em sobressalto a injectarem--me líquidos estranhos. Voltei a cair nos braços de Morfeu ao som de uma sirene estridente e todas as vezes que oiço o ‘tinóni’ viajo para o Bairro de S. Miguel e a cabeça macrocéfala do Godinho. Metade da cana do nariz ficou numa tigela de esmalte do Hospital de Santa Maria e passei a ter meio nariz de pugilista. Lembro-me de me doparem com uma máscara de aviador dizendo-me que quando despertasse estaria belo como um príncipe.

Um dia, a jogar à bola, fiz uma cueca ao Fanã e o Cabanas, para me barrar o golo, deu-me a sua famosa canelada mortífera de trivela, indo aterrar de costas e desamparado num calhau. Além de um par de costelas rachadas, o anelar da mão esquerda ficou colado ao mindinho com um ruído de um quebra-nozes. Na ortopedia do Santa Maria, o médico olhou o RX e sem demoras pediu-me que assobiasse, enquanto me pegava na mão como um carniceiro a apalpar um lombo de vitela. No lugar de um assobio dei um grito como se estivesse a parir, por conta de me endireitar o dedo a sangue frio. De tala e braço ao peito saí dali a rezar-lhe pela pele na esperança de que nessa noite engolisse um osso de frango. 
Tenho 17 cicatrizes, de pontos e costuras mais ou menos conseguidos na obra do costureiro, a mais acarinhada de uma circuncisão tardia, que resultou num 3 em 1. Por conta de duas tesouradas inguinais, decidi que era daquela que me convertia à pequena família dos circuncidados. Um dia, à entrada no aeroporto de Israel, levava material suspeito para os policiais de serviço e não fora o arreio forçado e inexplicável das calças, e a confirmação inusitada da ausência de prepúcio, e o mais certo era ter sido detido por suspeita de tráfico de livros cabalísticos.

(Crónica publicada na Lux 1058 de 10 de agosto)

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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