Nacional
Atriz e encenadora Natália Luiza foca depressão em texto de despedida a Pedro Lima
Natália 
Luiza Foto: DR
Redação Lux em 24 de Junho de 2020 às 13:42

A atriz e encenadora Natália Luiza deixou um emocionado texto de despedida a Pedro Lima em que aborda, de forma tocante, o tema da depressão.

Natália Luiza, de 60 anos, confessa, ele própria, ter experienciado a depressão e ter procurado ajuda médica a conselho de uma amiga:

"Um dia, uma amiga percebeu que eu tinha uma COISA e disse-me;- Tens de te tratar. E eu fui ao médico, e, se calhar, por isso, estou viva, porque eu não sabia que tinha uma COISA dentro.
E fiquei a saber que a COISA nunca larga, está sempre, sempre. Depois a gente julga que ela despareceu, mas no auge de qualquer paisagem, percebemos que ela esteve inteligentemente a olhar para o lado e que nunca de lá saiu, mais forte e mais madura que nunca, cheia de esquemas e disfarces e argumentário.

Leia aqui o texto partilhado no facebook:

DESPEDIDA

Estamos num tempo insensato, estranho, inquieto, incisivo.

O Pedro abriu dentro de mim uma porta muito grande, ao entregar a vida ao mar. Ele disse a fazer, o que os textos não podem, o que todas as palavras juntas não sabem.

Se o tempo não fosse estranho não escreveria nada, se não estivesse tão insensata como inquieta, deixaria só sair a água dos olhos, essa memória mar inscrita na matriz biológica.

Agora todos temos a possibilidade de dizer e ser no espaço virtual, opinião e exposição. Não é o meu território normal. Mas arrisco a ir para fora de pé, outro mar, tempo insensato e serei estranha até a mim mesma, nesse lugar sem conforto e sem resguardo.
Devo-o ao Pedro, ao silêncio que se dilata e dilata.

Queria muito agora, ser oceano colo, embalo maior, sal que cura e dizer e ser ouvida, meu querido, meu querido, meu querido Pedro, a quem nunca disse que gostava. E gostava, e gosto e gostarei sempre, porque habitamos o tempo que é nosso e até ao nosso fim, com os que escolhemos amar.

E quero dizer este eco que gritou/grita dentro, sábado e estes dias, quando um grande conjunto de pessoas insistentemente, perguntou e pergunta: porquê, Pedro, porquê?

E apetece-me gritar-lhes,
Não perguntem porquê.
Esta COISA não tem porquês! Existe, invade, come, come-nos!
Esta COISA não se explica, não se percebe, não tem racionalidade, não se controla.
Cresce no escuro, não se vê, esconde-se e agiganta-se. Começa devagar, por momentos, às vezes, parece que desaparece, mas subtilmente vai tomando conta de tudo, e ausente de luz não nos permite vislumbrar até onde vai, sequer que existe. Esta COISA dói, asfixia, apetece matar o peito.

Não perguntem porquê.
Isto não tem porquês, não se explica.
Há alturas em que se vê começar, e só começa por doer, e dói tanto que não se consegue, até que a dor fica insuportável e para se continuar a respirar, tem tudo de ficar vazio, tudo vazio, e depois nada importa, nem a dor, nem o mar mete medo ao vazio.

O que tens? Nada. Estou triste.
E ELES explicam pedagogicamente que não faz sentido sentir assim, estar assim, que se tem tudo; saúde, trabalho, amigos, inteligência, que a vida é uma bênção, que vai passar, que tudo passa ( até a vida), que é uma estupidez ser assim, sentir assim. E, zangam-se, dão lições de moral, elencam elogios, qualidades da vida, as qualidades que temos, como se houvesse espaço para acreditar, porque dentro a COISA ri-se desbragadamente ajudando a perceber que estão a mentir-nos.
E depois, para não se ouvir mais mentiras, finge-se que sim, que se acredita, que está tudo bem, sorri-se, disfarça-se, finge-se que não se vê, que não se vê, que somos fortes, sempre fortes, que não tem assunto, não queremos falar mais e, sim, que somos estúpidos mas, INACESSIVELMENTE, disfarçadamente. A COISA tem sempre razão. Nós não valemos nada, mesmo que os outros achem que temos tudo, porque a COISA cá dentro é a única medida de tudo, porque ela sabe, existe e ocupa.

Não perguntem porquê.
Isto não tem porquês, não se explica.
E vai-se fechando tudo à volta e a COISA vai dominando tudo, escurecendo tudo, apagando por dentro o corpo, ás vezes até o come, seca, envelhece precocemente, e vai crescendo proporcionalmente ao que mata em autoestima. Come até a dor, ao ponto de nos podermos queimar, fazer feridas e não se saber que nos queimámos ou temos feridas porque deixou de doer, porque não vimos, nem sentimos. E isto não é metafórico, é real.

Um dia, uma amiga percebeu que eu tinha uma COISA e disse-me;- Tens de te tratar. E eu fui ao médico, e, se calhar, por isso, estou viva, porque eu não sabia que tinha uma COISA dentro.
E fiquei a saber que a COISA nunca larga, está sempre, sempre. Depois a gente julga que ela despareceu, mas no auge de qualquer paisagem, percebemos que ela esteve inteligentemente a olhar para o lado e que nunca de lá saiu, mais forte e mais madura que nunca, cheia de esquemas e disfarces e argumentário.

Não perguntem porquê.
Isto não tem porquês, não se explica.
E nós, para além dela, da dor, amamos muito, tudo, ama-se tudo o que é fora, que é fora de nós, porque nós somos a COISA, que queremos matar, que não se explica, que cresce no escuro.
PEDRO QUERIDO, OBRIGADA por nos teres quase obrigado a falar disto, compelidos por esta dor sem nome da tua perda, mas de certeza a olharmos mais atentamente e melhor uns pelos outros, a olhar para e por nós, com todo o cuidado, amor, delicadeza e sem fingimento.
E, um dia ao amanhecer, encontraremos outro mar, aí nesse lugar onde nos encontraremos todos…
para recomeçar…

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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