Nacional
Alta Costura por Filipa Guimarães: 'Que falta de saudades dos programas desportivos!'
Alta Costura na Lux por Filipa Guimarães, jornalista e escritora Foto: DR
Redação Lux em 25 de Junho de 2020 às 18:00

Que falta de saudades dos programas desportivos! por Filipa Guimarães

O regresso dos jogos de futebol pode trazer alegria a muita gente. Mas o regresso da hegemonia dos programas desportivos, em quase todos os canais nacionais, é insuportável. Isto só quer dizer uma coisa: o futebol ocupa na nossa sociedade uma importância que ultrapassa muitíssimo o desporto em si. Sem aprofundar muito, até porque não posso afirmar coisas que não domino, considero uma vergonha que clubes com dívidas tenham tanta impunidade na nossa sociedade. O facto de mexerem com “muitos interesses”, para além dos desportivos, é motivo para serem mais importantes? Não devia! Antes pelo contrário. A falta de transparência do dinheiro que envolve o futebol e os seus agentes, o comportamento lamentável dos adeptos e das claques (até mesmo durante uma pandemia) não devia ser motivo de ampla reflexão? Há tantos negócios em crise, tantos problemas a enfrentar. Porque é que o futebol há de ter um estatuto especial? Porque move milhões? Porque é um escape nacional? O que pensarão os outros atletas de outras modalidades da primazia do “desporto-rei”? Como é possível que, numa altura destas, as grelhas de televisão continuem a exibir programas de tão má qualidade, com pessoas aos gritos e que falam nuns termos nada elevados? Sou absolutamente contra esta ditadura do futebol. Fico indignada que, em plena pandemia, as forças policiais tenham que intervir antes, durante e após os jogos. Que os adeptos andem à pancada e que vão para o hospital. A PSP e os hospitais não deviam estar, em primeiro lugar, ao serviço da sociedade civil?  Ou ser adepto de um clube, jogador de futebol ou comentador desportivo dá um estatuto especial aos cidadãos? Por mais que tente, sinto que o “partido do futebol” não é uma ficção. Ele existe e interessa muito mais do que aos adeptos dos clubes. Espero ainda vir a assistir a um “apagão” dos programas desportivos. Pelo menos, poupavam-nos os ouvidos e a paciência. Por mim, por uns tempos, nem um euro era gasto com o futebol.

(Crónica publicada na Lux 1051 de 22 de junho)

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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