Nacional
Alta Costura por Filipa Guimarães: 'Que saudades dos bolos de anos da Tia Sameiro'
Alta Costura na Lux por Filipa Guimarães, jornalista e escritora Foto: Carlos Ramos
Redação Lux em 27 de Agosto de 2020 às 18:00

QUE SAUDADES DOS BOLOS DE ANOS DA TIA SAMEIRO: OS MAIS FELIZES DESTES 50 ANOS! por por Filipa Guimarães


Sempre gostei de festejar os anos. Este ano, faço 50 e, até porque os meus 40 anos foram muito difíceis, estava desde o início do ano a programar um fim de semana com amigos (poucos, por causa da Covid) numa casa que a minha família tem no Marco de Canavezes. Sonhei meses com isto. E, para minha enorme surpresa, até consegui ter 12 pessoas naquele dia, dispostas a vestirem-se com o tema (pouco dispendioso) que escolhi. Mas os astros quiseram que não houvesse festa. Os problemas para conseguir chegar a tempo, preparar a casa, limpezas, comida e logística foram de tal ordem que desisti. Vivemos tempos de grande egoísmo e quem tem dinheiro acha que se pode comportar como quer: não deixar a casa pronta para o próximo, reclamar de despesas (que fazem parte de quem usa a casa), etc. Não há dúvida de que o dinheiro traz a muitos a estranha ilusão que podem mais do que os outros. Durante a minha infância e juventude, os meus anos eram sempre comemorados no dia de aniversário do meu irmão mais velho, primeiro netinho, primeiro filhinho, no dia 3. Porque fazia mais cedo e ainda tinha muitos amigos, assim, havia o bolo de anos dele e outro (com velas, se sobrassem). A tradição pegou moda e, sem culpa do meu irmão, a minha família habituou-se a quase só considerar esse dia. Por isso, pelo menos há 37 anos que os bolos que tive foram feitos carinhosamente pela mãe das minhas amigas Pinheiro (obrigada, Tia Sameiro!). Era só o tempo do bolo cozer e tinha uma família adotiva a fazer-me uma grande festa. Que saudades tenho dessa família alegre que não me cobrava nada (e era muito) do que fazia por mim. Vou fazer 50 anos, tenho amigos (poucos, mas muito bons), que ainda levam multas, pois eu, que tive uma quebra de rendimentos significativos, não tenho capacidade financeira para lhes oferecer a festa. Mas como são extraordinários, nobres e bem-formados, é para o lado que dormem melhor. Eles sabem que faria isso (e muito mais, por eles). Porque vivo numa tradição em que só quem se casa ou tem dinheiro é respeitado. Como sou solteira e os meus anos não enchem o olho dessa tradição judaico-cristã e com os olhos postos nas heranças (que vibra em partilhar coisas mais ostensivas e ricas) não vou ter nada para lhes mostrar. No fundo, acho que nem teriam capacidade para se divertir tanto. Não lhes interessa estarem na fotografia. E se a virem vão criticar, claro. De qualquer forma, obrigada a todos os amigos disponíveis e que gostam de mim, pobre ou rica, feliz ou triste. Aos que me estragaram o ambiente e desvalorizaram o mais que puderam o meio primeiro século, não me telefonem. Tentarei lembrar-me de me esquecer de vocês. Aliás, para eles, sempre fui um frete. É a vida...

(Crónica publicada na Lux 1060)

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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