Nacional
Pote de água por Tiago Salazar: 'O Tempo dos Ciganos'
Tiago Salazar
Redação Lux em 25 de Junho de 2020 às 10:00

O TEMPO DOS CIGANOS por Tiago Salazar

No Pote de Água, de menino e moço, havia que fazer pela vida. Sem mesada ou semanada para me governar, inventava a jorna para contornar o avio de chupa--chupas na mercearia do senhor Abílio. O meu primeiro negócio foi um acaso de ciganice. Um dia, depois de me aliviarem o relógio Timex e as sapatilhas Sanjo encardidas, pensei em ripostar. Era Dezembro e sabia de andar um dos ciganos que me tinha arrebanhado os pertences a vender pinheiros mansos no fundo da Avenida da Igreja. Um cigano velho e adunco como um corvo, aperaltado de chapéu, fato e gravata negros, de longas barbas grisalhas e penteadas com vaidoso esmero, tomava conta da chafarica, a dormitar num espaldar de lona, de manta de lã felpuda pelos artelhos. De vez em quando, quando alguém queria um pinheiro, o cigano mais novo, o meu malfeitor, de patilhas, retinto e mal enjorcado, vinha sacudi-lo, para os clientes lhe passarem as notas de vinte paus e este as enfiar amarrotadas no bolso com avidez de zagorro. O cigano mais novo atava e embalava os pinheiros e o velho arreganhava-se ao virarem-lhe as costas. Depois contava e voltava a contar as notas, regalado com a espessura do maço. No fim da contagem palitava os dentes de onde reluziam dois molares dourados, iluminados pela luz branca do entardecer. Eu via isto tudo num estudo mafioso mas que tomava por justo, sentado aos pés do Santo António, a quem pedia, sem sacrilégio, um empurrão de sorte, que é como quem diz, um bafejo. Ao findar da tarde, já noite fria e escura, o negócio dos ciganos fechava e os pinheiros eram deixados amontoados numa pilha, atados por uma corda de ráfia e escondidos debaixo de papelões nas arcadas do edifício do Ministério da Educação. Completado o estudo da golpada, deixei o cigano velho tapá-los com a última resma de papelão e enfiar-se numa Ford Transit para ir pé ante pé tratar de levar quantos pinheiros me coubessem no carrinho de mão que tinha a postos para o acerto de contas. Fiz então a viagem até à Avenida de Roma um par de vezes, ocultei uma vintena de pinheiros numa encosta por cima da linha férrea e no dia seguinte, logo pela manhã, lancei-me no comércio arbóreo. Até ao dia 24 despachei uma centena de pinheiros aos quais juntava de oferta uma caixa de sapatos forrada de musgo para os presépios, sem que os ciganos dessem pela concorrência, ou, pior, o ajuste directo.   
 

Hoje, quando me visto de feirante e cedo lugar ao cronista e ao escritor na demanda de ofícios de contingência, dou por mim a olhar cobiçoso os estrangeiros de Lisboa a subirem as ladeiras íngremes, muitos deles aos pares, uns enamorados, outros entediados. Cobiço os enamorados, os passarinhos do amor, a depenicarem beijos como quem come figos, depois de noites acesas nos contrafortes do Castelo. Vão por ali acima, logo ao passar da Sé, a escorregar para cima, como quem sobe a escada de Jacob ou trepa uma árvore frondosa. Uma das técnicas de venda mais comum do animador turístico (o vendilhão de rua) é dizer-lhes para pouparem as pernas ou fantasiar sobre as colinas de 500 metros ou mais que os esperam se forem a penantes, como se ir à Senhora do Monte fosse escalar o Kilimanjaro (a vertente da Penha de Graça seria o campo base do Evereste). O pregão resulta mais certeiro se entre os pares ou nas comitivas há crianças, coxos, obesos e velhos. Afinal, o tuk tuk salvador resolverá todos os problemas logísticos e afectivos, com o extra de percorrer labirintos e ruelas até chegar ao Olimpo. Os casais quando embarcam dão as mãos, e alguns, mais entrados na idade, já os vi benzerem-se, achando ser aquela lambreta de três pernas a passarola de Bartolomeu de Gusmão, e algures no caminho haver a possibilidade de nos despenharmos de uma ameia. A fantasia é uma poção da viagem. Tal como dizer a fadista Amália filha de preto e cigana ou a margem sul o princípio do Magrebe e as montanhas da Arrábida a cordilheira do Atlas. Um dos encantos possíveis será remendar a História e acrescentar-lhe o que nem Appio Sottomayor, um dos mais ilustres olisipógrafos, ou o Pessoa autor de guias, descobriram. Por exemplo, a possibilidade do apelido Medina vir do árabe marrano, e ser este uma muralha à expansão como no tempo dos ciganos. Ou então, aceitar a possibilidade de lúbrica de Lisboa ter origem numa esparregata de Ulisses com uma ninfa por cada dedo do pé.

(Crónica publicada na Lux 1051 de 22 de junho)

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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