Nacional
Nair Coelho em 22 de Janeiro de 2017 às 07:00
Mário Soares, uma vida dedicada à liberdade e à democracia

"Estou convencido de que depois de morrer, acabou tudo. Não há mais nada. Nem recompensas nem castigos. O meu pai, a minha mãe, os meus entes queridos, os que morreram, morreram, acabou-se. Fica em nós a memória deles. É tudo. Mais nada. E a memória vai-se desvanecendo, com a passagem das gerações.”

Foi assim que Mário Soares respondeu quando, numa entrevista ao Diário de Notícias, em 2004, lhe perguntaram de que forma achava que iria ser recordado após a sua morte.

“Não faço ideia nenhuma e é coisa que me interessa relativamente pouco. Não acredito na eternidade, na imortalidade, na alma. O que fica de mim é um rodapé num livro de história”.

No dia 7 de janeiro, Mário Soares morreu com 92 anos, e, ao contrário do que um dia defendeu, é certo que o seu nome não será esquecido e constará sempre nos manuais de História, como um dos personagens que marcaram a história da democracia portuguesa. 

Filho de João Lopes Soares e de Elisa Nobre, Mário Alberto Nobre Lopes Soares, de seu nome completo, nasceu em Lisboa a 7 de dezembro de 1924, no seio de uma família republicana. O pai, um pedagodo republicano, ministro das Colónias da 1ª República, não concordava com os ideais do filho, mas segundo Mário Soares, “nunca tentou evitar que eu fosse o que fosse. Nem na política nem na religião”.

Numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro, em 2012, o político abriu o baú das recordações e falou sobre os pais.

“O meu pai sempre foi muito católico. Começou por ser padre, depois despadrou-se e casou com a minha mãe pela igreja (teve que fazer um processo na Cúria romana), e nunca me obrigou a ir à missa.”

Com dois irmãos bastante mais velhos, de outras relações dos pais, Mário Soares passou a infância a ser protegido pelo progenitor, que o colocava acima de tudo e de todos e cujo percurso académico e político acompanhou sempre com preocupação mas com enorme orgulho.

“Foi profundamente amado pelo pai e pela mãe. Só o viam a ele. Ele era centro de todas as atenções”, contou Isabel Soares, sua filha, há oito anos, a Anabela Mota Ribeiro.

Uma proteção em muito justificada pela doença que cedo o deixou entre a vida e a morte, como recordou o próprio Mário Soares, com o seu conhecido sentido de humor:

“Estive muito doente. Uma doença de brônquios. Os médicos diziam que eu ia morrer. Tinha três anos de idade, coisa assim. [A mãe] resolveu fazer uma promessa: ‘Se ele escapar, vou à Senhora de Fátima com uma grande vela, do tamanho dele!’. Pus-me bom. Quando a vida do meu pai estabilizou, e fundou o colégio, disse à minha mãe: ‘Tu não fizeste uma promessa? Tens de a cumprir’. E então lá vou eu, com os meus doze anos, já espigadote, com uma vela para entregar à Senhora de Fátima! Foi uma das grandes humilhações da minha vida!” 

Depois de uma infância privilegiada na capital, Mário Soares entrou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas, em 1951, e, seis anos mais tarde, em Direito. Na Cidade Universitária de Lisboa passou alguns dos melhores e mais intensos anos da sua vida política e pessoal. Foi lá também que, em 1945, conheceu e se apaixonou por Maria Barroso, na altura a frequentar o curso de Histórico-Filosóficas. Uniu-os o amor e os ideais políticos de luta contra o regime.

Em 1949, Soares é preso pela quarta vez e, alguns dias após a detenção, Maria Barroso, grávida do primeiro filho do casal, foi à conservatória do Registo Civil com os pais e três dos irmãos e, com 24 anos, casa-se com Mário Soares por procuração. Trocaram alianças algumas horas mais tarde, na prisão de Aljube, e seis meses depois nasce o primeiro filho do casal, João, que herdou a paixão pela política, e dois anos depois, Isabel, que assumiu a direção do Colégio Moderno, fundado pelo avô, em 1936.

Viveram uma longa e bonita história de amor, baseada na admiração e no respeito que tinham um pelo outro. Ela abdicou da carreira como atriz para estar ao lado do homem que amou durante setenta anos. Primeiro em nome da política, depois em nome da família.

“Quando vejo o meu marido, vejo exatamente o mesmo homem que conheci há 70 anos. Com a mesma ternura, a mesma simpatia e a mesma admiração por tudo o que foi a sua vida. E sem perder a independência de termos várias vezes opiniões diferentes. Respeitámo-nos sempre”, confessou Maria Barroso ao jornal i, por ocasião dos seus 90 anos.

Com uma vida agitada e intensa, Maria Barroso nunca vacilou e manteve-se sempre ao lado do marido, onde quer que fosse.

“Viver em conjunto é desgastante para o casal quando os dias são sempre iguais, mas entre nós nunca houve tédio. E nós passámos por tantas dificuldades, que isso sempre foi renovando a relação”, disse a antiga primeira-dama no livro de Leonor Xavier, “Maria Barroso - Um Olhar Sobre a Vida”. 

Nos tempos da faculdade, Mário Soares participou ativamente na organização da oposição à ditadura de Salazar e foi um dos pilares dos movimentos democráticos que surgiram no início da década de 40. Ao mesmo tempo, passou pelo colégio da família, onde deu aulas, defendeu presos políticos participando em numerosos julgamentos contra a PIDE. Às mãos da polícia política portuguesa, Mário Soares foi preso doze vezes e passou, no total, quase três anos na cadeia. Foi deportado sem julgamento para a ilha de S. Tomé, em 1968 e, em 1970, foi forçado ao exílio em França.

“Às vezes, a PIDE entrava lá por casa para fazer uma busca e levar o meu pai. Quando era mais pequena, era difícil viver com isso. As pessoas sabiam: ‘O pai está preso’. Mas para nós era banal e um motivo de orgulho. Íamos vê-lo sistematicamente à cadeia”, conta a filha de Mário Soares, numa entrevista ao Público em 2008, recordando que, ao lado do irmão, tinha a tarefa de distrair os guardas para que a mãe, que lhe levava as marmitas da comida embrulhadas com os jornais da véspera, conseguisse falar com o pai. Preso e longe da mulher e dos filhos, Mário Soares escreveu muitas cartas, sempre positivas. “Eram amorosas e ternas”, conta Isabel Soares, que descreve o pai como “uma força da natureza”: “Sempre nos transmitiu o gosto de viver, o tirar o lado positivo de tudo (mesmo na adversidade das prisões)”.

Para ela, o homem que o regime perseguia era ‘apenas’ o pai.

“Era a pessoa que nos ensinava a nadar, que nos atirava, com quatro ou cinco anos, para o mar da Foz do Arelho, que nos fazia não ter medo.” Apesar de “ausente”, Mário Soares era “um pai muito afetuoso, expansivo, de grande ternura” e, quando não estava “as coisas eram mais tristes”. 


Em 1964, Mário Soares cria a Ação Socialista Portuguesa e, mais tarde, também com a mulher, funda o Partido Socialista, onde foi eleito Secretário-Geral durante quase treze anos consecutivos. Em 74, regressa do exílio em Paris, onde estava há três anos, três dias depois da Revolução dos Cravos. Acompanhado pela mulher, que esteve sempre a seu lado, chega à estação de Santa Apolónia naquele que ficou conhecido como ‘o comboio da liberdade’.

“Surpreendi-me muitíssimo quando cheguei a Lisboa e fiz o primeiro discurso às massas, na varanda de Santa Apolónia”, pode ler-se na biografia escrita por Joaquim Vieira “Mário Soares – Uma Vida”.

Foi primeiro-ministro de 1976 a 1978 e de 1983 a 1985. Negociou a entrada de Portugal na Comunidade Europeia e foi eleito presidente da República em dois mandatos sucessivos, de 1986 a 1996. A nível político, Soares marcou uma nova era: viajava de norte a sul do país, para estar perto do eleitorado, e criava empatia com todos os que se cruzavam no seu caminho. Foi, mais tarde, eurodeputado no Parlamento Europeu e, aos 80 anos, ainda entrou na corrida a Belém, perdendo para Cavaco Silva.

“Foi uma surpresa geral. A minha família próxima (a minha mulher, os meus dois filhos e os netos mais velhos) não aprovou a minha decisão. Mas, como sempre, apoiou-me”, afirmou Soares.

Enquanto conseguiu, Mário Soares, sempre atento e opinativo em relação à vida política, dedicou-se à escrita e à fundação com o seu nome. Uma encefalite, inflamação aguda causada por um vírus da gripe, em 2013, e sobretudo a morte da mulher, a 7 de julho de 2015, acabaram por derrubar Mário Soares. Tinham sido setenta anos de uma vida de partilhas, de dedicação, de luta.

“Não sei quem é o braço direito de quem… Vi todas as peças que ela fez. No entanto, apaixonei-me pela mulher que ela é, não pela atriz”, disse na homenagem à mulher no Teatro Nacional D. Maria II, em 2011.

Frágil e bastante debilitado, o histórico líder socialista refugiou-se em casa, no Campo Grande, onde a família o visitava. Viu nascer cinco netos, fruto dos dois casamentos de João Soares, e com eles partilhou muitos momentos. Alguns dos mais descontraídos eram passados na casa de férias da família, na praia do Vau, no Algarve, onde Mário Soares era conhecido pelas suas longas e animadas caminhas. 

Depois de 2015, raras foram as vezes em que surgiu publicamente. A última foi em julho deste ano, nos jardins do Palácio de São Bento, na comemoração dos 40 anos da posse do I Governo Constitucional. Rodeado pelos filhos, Isabel e João, e pelos cinco netos, Mário, Mafalda e Inês, os mais velhos, do primeiro casamento de João Soares, e os mais novos, Jonas, de 13 anos, e Lilah, de 9, da atual relação do antigo ministro da Cultura com a belga Annick Burhenn, Mário Soares assistiu sentado à cerimónia. Não falou mas ouviu atentamente todos os discursos que homenagearam a sua coragem e determinação ao longo da vida. Uma cerimónia repleta de emoção e respeito pelo homem que foi, e será sempre, o rosto da democracia e da liberdade em Portugal.

“Só é vencido quem desiste de lutar”, disse um dia, revelando a fibra de que era feito.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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