Nacional
Alta Costura por Filipa Guimarães: 'A Câmara Municipal de Lisboa andou comigo na escola?'
Alta Costura na Lux por Filipa Guimarães, jornalista e escritora Foto: DR
Redação Lux em 9 de Julho de 2020 às 18:00

A Câmara Municipal de Lisboa andou comigo na escola?, por Filipa Guimarães

Como temos vindo a reparar, de forma brusca, a vida passou-se para o online. Não toda, mas grande parte. Das pequenas operações de homebanking às consultas médicas, dos pequenos recados aos pedidos de casamento e divórcio. Aconteceu de tudo um pouco. Até a cibercriminalidade. E mais irá, certamente, acontecer. Nesta adaptação quase diária à nova realidade (há quem use antes a expressão “nova normalidade”, mas eu não sei onde é que para o “normal”...), temos de ouvir gravações no telemóvel, recebemos e-mails de lojas com saldos a descer a pique e ouvimos conselhos oficiais de como lavar as mãos ou estarmos em sociedade sem contaminar o próximo. Quanto a isto, pouco ou nada a fazer, por enquanto. O que eu gostaria é que, do outro lado, não me tratassem por “tu”. Mais, não gosto que tratem os meus pais por tu. Nem as pessoas a quem eu própria trato por tu. Podem achar isto secundário, mas diz muito sobre as cabeças que mandam.
“Não percas tempo! Escolhe os teus looks” diz-me uma cadeia de lojas de roupa interior. É certo que autorizei a que usassem o meu e-mail para ter direito a 10% de desconto, mas isso não lhes dá o direito a que me tratem por tu, ora bolas! Dispenso tanta intimidade com lojas. Até porque se lá entrarmos, o tratamento não tem nada a ver com esta linguagem.
Porém, o maior sobressalto com o “tu cá tu lá” instalado surgiu em forma de um dos cartazes que a CML (Câmara Municipal de Lisboa) decidiu pôr nas paragens de autocarro, depois do aumento do número de casos na região de Lisboa e Vale do Tejo, mais especificamente os contágios contraídos em festas. “Não ponhas em risco a saúde dos teus pais e avós.” O aviso, ainda que tardio, até é oportuno, mas dá vontade de responder à letra ao presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina: “Tu deves é estar a gozar comigo!” Eu acho que andou. Comigo e com todos os lisboetas. Durante o estado de emergência, fechou (ou então não esteve em Lisboa...) os olhos às condições em que trabalharam a construção civil, os empregados de limpeza, os estafetas e todos aqueles que não tiveram outra solução que não ficar a servir a cidade e os seus munícipes. Este tratamento por “tu”, vindo do município mais importante do país, revolta-me ainda mais. Os autarcas não andaram connosco na escola. Tão simples quanto isto.

(Crónica publicada na Lux 1053 de 6 de julho)

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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